27.12.03

não faz sentido
foda.se

26.12.03

a pessoa tenta sair da paisagem, a estrada de terra batida, restos de calcáreo, divorcia-se para o lado direito, e atrás a falésia e um mar calmo, azul, cheio de tranquilizantes, observam esta bifurcação.

24.12.03

- às vezes apetece-me morrer, como quem vai desenhando a carvão a sombra das rochas no mar.

23.12.03

asma

uma árvore invertida no tronco procura afogar-se no teu organismo

16.12.03

um quarto de quartzo

a rapidez do nevoeiro passa. por entre um rio espelhado a cimento e longos armazães junto á horizontal do rio. um nevoeiro de granito e nele alguém me falou de uma morte recente de uma pessoa que conhecia. "cruzes credo na porta da tabacaria!". é uma reencarnação dessa personagem concerteza. mas eu sou suficientemente egoísta para me alhear do facto, para não ligar, e para furar o nevoeiro como a alegria de um combóio. e o sol atraí-me com os seus cânticos e os seus crepúsculos.
alguém disse uma vez que a morte só acontece aos outros. como é bela e verdadeira essa frase.

13.12.03

aparelhos respiratórios

, as vírgulas na paisagem, estruturas linguísticas erguem-se como muralhas, e lá dentro talvez esteja o ser. os tubos respiratórios cheios de asma, a ventilação,

a fluidez do fogo

se formos bem a ver o fogo comporta-se mais como a água, com os seus caudais, meandros e estuários em delta, do que qualquer outra coisa

10.12.03

um quadro de munch

depois do beijo, sorrio sangue. ela retribui o sorriso. e mostra os ossos da boca.

5.12.03

estão a visitar a minha mente, anjos da ignorância caem ao chão como vidros partidos, marchas militares, a humanidade desfila com a sua desumanidade, se nos preocuparmos com o nada, se nos enquadrarmos nos debaixo da terra, os sonhos, a queda da casa de uscher, sirenes tocam a rebate, é a hora do recolher obrigatório.
os desenhos lá estavam. enormes a cercarem-me pelas paredes. casas. jardins. muros. pormenores. e o corpo deslocava-se entre eles como uma coluna cervical pendurada pelo pescoço. e a luz era ténue, e ficou pesada como um batiscafo. e os desenhos estavam nas paredes, a sorrir a longa humilhação de tantos anos.

4.12.03

as paredes moles a respirarem batráquios, dentro de um quarto digestivo, por entre as sombras e os.

2.12.03

ser e tempo

por vezes a floresta não é um monstro. com lagostins nas suas raízes, as árvores submersas, todo um ecossistema da salvação, com a sopa da humidade e do húmus, e peixes por entre os caules, cinestesicamente a dar às barbatanas. por vezes a floresta não é um monstro mas tão só e apenas o labirinto que precisamos de vencer. esses fungos e musgos antropológicos, que pintalgam as cascas da árvores, e os cogumelos a espreitar de podridão, com o seu ar esfíngico prometendo a morte ou as mais raras visões do universo. e o frio. e a escuridão. um frio e uma escuridão terríveis, que molha os ossos como um cargueiro, como a alegria, a afogar-se.

um espaço em branco

um espaço em branco, que não foi quando se escreve, as minhas mãos, o cimento despejado é na aorta, essas bombas coronárias que em fluxo, que correr na planície e no areal, polido de vento e de chuvas. a correr com o fôlego aos farrapos. um torso da serra, deitado na catástrofe. aqui houve um vulcão, de quem está no guincho a ver a serra. e depois ainda o espírito confuso. a perturbação. a eterna e cíclica perturbação. vou ter de morrer outra vez, parece-me. enquanto o vendaval leva os trapos e plásticos pelos ares. e a maresia resfolega amarelada de resíduos de crude. e as ondas gigantes e enérgicas redemoinham o litoral. nada se consegue e é tudo muito triste. apesar de continuarmos a correr, a fazer jogging, num frio cortante e em céus nietzchianos, a fazer corridas para tentar fazer funcionar o coração.

30.11.03

interferência

temos que a geometria, temos que deus. temos que a explicação para tudo, através deste cigarro, outras combustões, por exemplo na sala. onde deixeia a nostalgia e o esquema de ser tudo. eu quando penso nisto muito tanto. no meio do meu quarto. um lago profundo e a profundidade de coisas lá dentro. vou-me afogar.

25.11.03

imaturidade

por vezes apetece-me tanto atirar-me das escadarias abaixo, para mostrar o visceral desprezo que sinto pelas pessoas.
no meio das pessoas só me apetece gritar ou cortar a garganta

cidade

uma crosta de construções cobre a crusta da terra

19.11.03

aparição

um cavalo a remos atravessa o templo do tempo. as ondas são de mármore líquido.

16.11.03

antes do solstício

o inverno é brando nestas latitudes, no entanto é o suficiente para me congelar a alegria e a vontade.
...

10.11.03

a chuva e o fogo

oiço a chuva. ela está por todo o lado. deitado no colchão sempre no chão que é onde se dorme junto ao espírito da terra. ontem bebi, mas hoje sinto-me bem. é de noite. domingo. e passei o dia todo a dormir. e a ler quando acordado vergilio ferreira. e sinto-me bem, protegido, sem me faltar nada. e é por isso é que a esperança existe. é porque de facto, de vez em quando, as pessoas melhoram. no entanto a minha namorada e que tem qualquer coisa de sibila, acha que ando esquisito. não mais que o habtual meu amor. não mais que o habitual.

8.11.03

penedo

de vez em quando passo no portão da casa dos teus pais. nunca entrei lá. mas tive uma vez nos teus anos numa casa que dava para a sé de lisboa. o teu quarto era cheio de coisinhas, budas, incensos, amuletos, panos étnicos. e tinhas uns olhos lindos e uma magreza que só mais tarde é que percebi que era esculpida pela heroína. e tinhas aquele ar vago, ausente, de quem se dedica a esoterismos. e eras uma personagem que despertava uma certa curiosidade. e depois morreste. só o soube umas semanas depois. gostava do teu ar frágil, talvez isso me despertasse instintos de protecção. mas sendo sincero não posso dizer que tenha sido muito afectado pela tua morte. mal te conhecia. mas sentia e continuo a sentir simpatia por ti. nunc ative por ti apaixonado, como faz querer parecer o contexto desta conversa. mas sempre que passo na estrada que vai para o penedo, e passo à frente da casa dos teus pais, lembro-me de ti. e fico sempre a tentar recordar o teu nome que esqueci. faz tempo que morreste. talvez dois ou três anos.

7.11.03

crase

falésias disfóricas, com velhos desdentados à janela.

6.11.03

os deuses do sol

recebe os ossos através do sol, as costelas do aço, o levantar de um deus ou de um monstro no céu, o incêndio que atravessa o anfiteatro da cidade. as tuas mãos penduradas de lado, enamoradas pelo estrangulamento.

2.11.03

átrio

quando passo por este átrio lembro-me, de vez em quando, de um anónimo que se atirou lá de cima e se estatelou neste chão tão duro e tão asséptico.

31.10.03

zigurate

oiço vozes que insistem em chamar-me radiactivos carbono catorze. os mortos têm inveja de mim. querem que eu volte à matéria inanimada de onde saí. à matéria inanimada e imóvel. e tá-me tanto a apetecer beber uns copos para esquecer esta realidade.

30.10.03

ipsílon

hoje vi o ipsílon a pedir na estação. já foi o que se pode chamar, mais ou menos, um amigo. enfim, de copos e de boémia... é impressionante como a doença psíquica pode vir a afectar qualquer um de nós. podia ser eu no lugar dele. no entanto evitei-o e não lhe falei.

29.10.03

percorremos as pequenas avenidas, com arbustos pequenos, que geometrizam a natureza. e aquilo deu-nos um fôlego extra para pensar. a natureza tinha sido encaixotada num régua e esquadro. e assim é que estava bem, corrigida e racionalizada. porque a natureza finge que não quer seguir as leis da matemática, e deve ser forçada a isso como uma criança renitente.

25.10.03

pupila

por entre olhos e flores, a catástrofe a olhar o rosto de outra catástrofre.

21.10.03

tundra

a imaginação congelada. e uma ferida a coagular.

16.10.03

adriana

sublinhei os teus passos com os meus passos. era a areia e eu fazia um exercício de focalização em pôr os meus pés exactamente na areia onde os teus pés acabaram de fazer uma marca. e, concentrado em seguir-te, esqueci-me de mim. e senti que, por breves instantes, com um atraso de décimas de segundos, eu habitava o teu espaço. e o teu espaço eram conchas que faziam um barulho crocante ao serem pisadas. e havia o barulho ondulatório do mar. com ecos domesticados de tempestade. e um crepúsculo de tangerina, espalhado pelas auto-estradas de cirros e por cima das nossas cabeças.

14.10.03

perguntei ao desespero porque é que a vida tinha que ser assim. ele respondeu-me que existe uma alavanca no centro do planeta que pode accionar tudo.
as árvores, de certa maneira e do meu ponto focal, já fazem parte do céu.

8.10.03

solidão e silêncio

é a altura que toca a rebate a solidão e o silêncio

7.10.03

mitologia

em vez da cabeça uma pirâmide.

6.10.03

dorso

o mar de noite revela que é um animal.

aniversário

desnovelo a estrada de carro. confortável. depois do aniversário da minha irmã. através do penedo, do pé da serra, por entre quintas adormecidas, carvalhos, canaviais, constelações e árvores-sombra.
as estradas vazias. a tranquilidade. a afectividade. a amizade. os muros. as curvas. os altos e baixos. a plenitude.

4.10.03

uma floresta quer levantar-se no centro do teu deserto.

eros

uma doença tão bela como uma flor

transubstanciação

ando ultimamente a ser habitado por outras pessoas. e agora tenho a cabeça pesada. tão pesada como se o coração fosse parar. ou como se a força de gravidade tivesse aumentado o tamanho das pedras.

2.10.03

verdade e floresta

puz-me a caminho, e passados três dias cheguei dois dias depois.

1.10.03

o meu coração é um animal que escoicinha. e com as suas patas põe pegadas na pleura.
tenho um coração grande. do tamanho de um estômago. pendurado numa catedral de ossos.

30.9.03

um dia talvez

26.9.03

o mar todo veio até aqui, espelhado em setembro, até mim, como legiões a desfilarem, com todos os troféus de guerra, despojos, escravos.

jangada

os ossos como se fossem pedras, a boiarem dentro do corpo, mergulhados no sangue, aquário de vida.
uma planície rasa de electrões, sentado numa cadeira de esplanada, de metal, sinto-me antena perante o electromagnetismo. silvos hertzianos, a sintonização do campo onírico, uma área plana e infinita, com

25.9.03

sextante

um rio de aço serpenteia entre as colinas. contornando os cumes, afundado nos vales, tentando desaguar na felicidade.

24.9.03

thanatos

um dia todos regressaremos ao grande mar.

21.9.03

depois da pele

uma biografia de juncos, o encéfalo a esvaziar-se, os joelhos do pensamento esfolados, uma casa porque.

falsos profetas

os gritos dos de lá de fora trepam para cima das paredes da esperança.

aparição

um cavalo a remos atravessa o templo do tempo. as ondas são de mármore líquido.

20.9.03

crime e castigo

pôr a minha imaginação a ferros dentro de uma anémona.

reflexão

o homem sempre olhou para cima. para o céu e nele pensou em deus. na tentativa desesperada de se livrar da terra, do chão, do húmus, que através do pó o puxa para baixo. somos matéria que se levantou do chão. lama que caminha pela terra... enfim, mas isto já não é nenhuma novidade.

bucólica

no campo, toda a gente sabe, tem que se tomar muito prozac. senão ainda se acaba pendurado pelo pescoço na puta da oliveira.

18.9.03

inocência

por vezes pergunto-me quem seriam os tão famosos nazis. não seriam os alemães, concerteza, porque uns obedeciam a ordens e os outros eram artistas.

12.9.03

comunicação

entre o que dizes e o que eu digo existe um animal vivo, uma torrente semântica entre duas bocas. que não pertence nem a mim nem a ti. que só existe quando estamos juntos mas que nenhum controla. desenvolve-se no tempo. vai por caminhos pedregosos, penhascos, e senta-se ao pé de grandes avenidas francesas, para ver passar a razão e a geometria. (...) entre o que dizes e o que eu digo há um animal vivo que é o discurso, que não tem rédeas em ninguém. é como se fosse outra pessoa. (...) sempre que abrimos a boca sai de lá um fantasma. tu estás aí mas eu não sei quem és tu.muito menos esta massa de palavras-organismo que se acumula entre nós.

...

o pôr do sol na praia, como um pai a bater num filho

tese

o martírio é sagrado, independentemente da causa.

paradoxo

porque é que os animais nocturnos são atraídos pela luz?

9.9.03

outros crustáceos

uma depressão de moluscos, uma falésia a desfalecer. o medo incrustrado nos crustáceos. nas cascas das árvores. na multidão de sombras que sussurram pinheiros. um vazio como a remoção cirúrgica de uma massa. o sangue coagulado. à espera. e o frio que atravessa os movimentos. o frio das cartilagens. os sulcos profundos nas falésias. como olheiras de uma noite mal dormida. o inchaço da fronte, que se desdobra em atenção à escrita. o sussurro doce de duas adolescentes que chilreiam baixinho sober rapazes, enquanto o mar enorme, por trás, se teratraliza.
já aconteceram muitas coisas neste sítio, aqui. coisas das quais perdi a memória. ou já não quero saber. ou nunca reparei. ou então ribeiros de charcos e marmotas. e eu amo estas pedras, este embaciar de lua, este esqueleto estiramento. eu amo estas ervas e o nome que não sei delas. e o sal em suspensão no ar e no mar. e o meu coração que se expande, que transvasa para o externo e para as costelas. como uma angina de peito. ontem pensei, seriamente, que ele ia parar. hoje debruço-me sobre a escrita, do parapeito da humidade atmosférica.
- não te embebedes outra vez- disse ela- senão amanhã tás o dia todo mal disposto.
sim, não me embebedo. vou ficar apenas aqui, com o meu cansaço e com o meu conforto. com o mar em frente. com o seu motor ondulatório a fazer o barulho constante. fico aqui sentado. na esplanada sobre a falésia. a brincar com as minhas gengivas. estes cedros são solenes. alinhados de encontro ao muro. uma gaivota piou na escuridão. tentando provavelmente sair do núcleo da noite. eu tou entregue à minha solidão. uma solidão calma, rasgada de espáduas. dormentes pelo esforço de acasalar. sim, não me embebedo, tou apenas a beberricar um sumo sozinho. numa esplanada nocturna, sonâmbula e vazia. rodeado pela minha amiga misantropia e pelas minhas muralhas. a contemplar da torre de menagem a grande noite... a noite de alguma ternura e vazio.

dedicação

sonhei que a minha namorada ficava sem um braço. e que eu arrancava o meu para substituir o dela.

5.9.03

o príncipe no bairro alto

toda a gente pensa que quando tem uma garrafa na mão tem uma arma. no entanto raros experimentam parti-la. ela "não" parte. é muito mais difícil partir o raio do vasilhame do que depois de partida enfiá-la na cara dos anormais.

4.9.03

nietzche e o xadrez:

- por vezes é imperioso espetar com o tabuleiro de mármore no cérebro do adversário quando este faz gambito.

3.9.03

ghetsmani

amanhã vou ser executado. os apóstolos dormem. não sei se sou mesmo deus ou não. mas acontecem mesmo estes milagres pelas minhas mãos fora. mas dai até ser mesmo deus não sei. tou inseguro. como é bela, grande, esta noite cheia de estrelas, com o suave calor da judeia. apetecia-me mesmo ir dormir. como os meus amigos. mas não consigo deixar de pensar no martírio. e se deus que sou eu não existe e não me salvo? não sei se seria apenas pelo exemplo como homem. isso não me chega. (...) a cruz erguer-se-á comigo espancado. e cada que passo que der com ela às costas será uma confirmação de tudo o que tenho pregado. estranha maneira de provar que sou quem sou. e se me faltam as forças para levar isto até ao fim? será que vou ter coragem?, mas que grande e viva abóboda celeste por cima de mim, que se agita com o vento das oliveiras. (...) amanhã já aqui não estou. será que vou vencer todo o sofirmento que me espera? será que venço mesmo a lei da morte como os profetas disseram? e se não for mesmo eu e for outro. tenho medo que me possa ter enganado. e seria apenas mais um com dons curativos. (...) amanhã ou tudo se confirma ou então serei abandonado e esquecido.

2.9.03

s. joão

atenção pequenada, o apocalipse está próximo

ressacar

de vez em quando tenho a cabeça tão estragada que parece que tou a cozê-la ao sol do tarrafal.

vox populi, vox dei

o povo e a merda são incontornáveis.

palestina

é o desespero absoluto que faz com que um homem exploda.

palimpsesto

apago furiosamente as letras dos meus livros. tento finalmente chegar ao que está por detrás do texto.

1.9.03

síndrome de estocolmo

... e por fim os judeus absorveram as melhores qualidades dos seus carrascos.

uma esfinge

mergulho a memória o mais longe que consigo. no obscuro nevoeiro do passado longínquo, nas recordações que se esfarelam à medida que mais para trás. desde as trevas da inconsciência... e ando ás voltas com esta questão, inexpugnável, simples e inexpugnável, questão: afinal, porque é que eu sou eu?...

31.8.03

vanitas

agora que vou morrer vejo o aço acumulado que culpa minha. agora que vou morrer vejo para além de tudo o que me disseram. vejo que o meu eixo sempre esteve errado. desde aquele acordar cirúrgico. infantil. desde aquela curva peristáltica, depois da comida a apodrecer no estômago. depois daquele momento da expulsão do sangue. em que pensei, será ainda possível vivermos?, e depois em vez de uma morte gloriosa ficamos cão à espera, do avesso da catedral, à espera em evaporação que

30.8.03

falésias de xisto

um sol tirado de dentro de um livro de fábulas. uma longa viagem bípede pelas falésias. os reflexos de cristal na chapa ondulada do oceano. os sons das árvores e do marulhar do mar tranquilizando. um barco patrulha, cinzento, a procurar nos meandros da costa. o jipe da policia marítima, populares excitados a olharem lá para baixo, para as rochas afiadas.(como é bom estar vivo num belo dia de verão, um dia sem pressão arterial como este, a passear despreocupado pelas belas falésias de xisto)...

übermensch

alguém disse uma vez que depois de auschwitz era impossível escrever poesia. foi simpático dizer isso.

28.8.03

o sangue mais forte

há qualquer coisa de estranho. de assimétrico no teu olhar. uma paisagem esgotada, sem daguerreótipo nem futuro. uma paisagem esgotada. a inumação do que vais dizendo. o desfolhar oncológico das tuas palavras.a inumação do que vais dizendo. a desarmonia com que sempre me surpreendes. sobretudo a irritação e o muro onde assassinamos animais a um deus inquieto e traumatizado. (...) o céu aproxima-se, criança perturbada, as cordas a pedirem-te escoriações. (...)
um monstro dentro de ti, um monstro inconsciente, sonâmbulo, balbuciante, a subir abrupto como os ovos da sida na tua ansiedade. (...) uma sirene ao longe, batráquios e artilharia atolados num lago. a paixão pela morte. a ferrugem e o bolor. as máquinas grandes paradas. dramáticas como uma escultura clássica. o sangue que pulsa. o sangue que faz pressão por todo o corpo. que procura um ponto frágil por onde escapar. (...) um universo de linfócitos, de interrupções, de plaquetas, e glóbulos cheios de oxigénio. o sangue que se despeja como uma máquina de destruir cereais. a ansiedade dos prisioneiros, recebendo ao colo o seu próprio massacre. a estimulação química do cérebro. para provocar uma reacção. a estimulação violenta do corpo. a estimulação contra-natura das massas. para provocar uma reacção. a falta de ar, a bomba asmática, a geringonça a arfar dentro do poço. o asfalto. a divisão da propriedade. os muros que reticulam a imaginação. e o sangue à espera, o sangue a olhar com sentimento paradoxais. a asfixia. os prisioneiros de guerra que esperam, com o seu sangue a cristalizar e a rebentar com o corpo. a falta de ar. a ansiedade. o esgotamento nervoso. agora só a dor pode curar. agora só a dor pode fortalecer o sangue. agora só a dor pode curar. que venha um deus do sofrimento para que (...) e a parede onde sacrificam os animais chama-nos. e o húmus desenvolve-se através de caminhos ogivados. e um poço profundo no neo-córtex. uma paisagem de magnésio. fluorescente, onde grilos hertzianos pululam, sintonizando o teu espanto. (...) e essa agora tão profunda através do crânio, essa falta de pensamentos. essa repugnância de insectos. essa luta pelo sangue mais forte. essa ansiedade de pirâmides. (como um faraó feito de luz e de matéria) esse deslizar complanado pelas tuas células. a inundação do sangue aos teus órgãos, como um estremecimento de aqueduto, como uma artéria a estrangular uma árvore, como uma flor excessiva, como uma clorofila canibal, como uma caneta a penetrar na massa muscular, como uma tontura, como o húmus debaixo do fervilhar sarcástico, como as faces paradas a olhar, como a claustrofobia do sangue, como as urgências de um hospital, como o abuso de medicamentos, como o reflexo inquieto da garrafa, como um gesto definitivo, como uma palavra de bronze, como quando as pessoas têm segredos sórdidos a mancharem-lhes as calças, como a purificação do sangue na hemodiálise, de qualquer das maneiras algum dia tinha que ser, de qualquer das maneiras teve que ser, a descompensação, o desiquilíbrio, as vozes divergentes, e díspares (...) algum dia tinha que ser, o doente mental que ergue um império na cabeça da sua loucura, apenas com a força do seu sangue, com a sua voracidade obsessiva-compulsiva, os fuzilamentos voluntários, a fonte de onde escorregam os corpos das almas, como um receio não justificado, como quando procuramos a salvação, quando procuramos o deus do sofrimento, como quando há um caminho de fábulas e as estrelas estão atentas, como quando nos refugiamos num castelo de alcóol. para esquecer o sangue mais forte. em seteiras bebidas até ao fundo do copo.

26.8.03

o deus da doença

um império se desenha, com o ar raízes dos dentes a enraízarem-se no escudo continental. extractos mais profundos. radiações das pegadas de outra gente. os ecos de batalhas, absorvidas pela rocha que se desagrega com a erosão. a limonite, a ferrugem das pedras, a lixiviação das rochas épicas. a radiação de outras gentes que impregnam o solo e os aquíferos. os pés que se afundam nos canos dos perónios. que se encharcam no passado. a rua do raio. a aurora dos decapitados. a dificuldade em andar. o som que se propaga nas ruínas. o coração que ainda não parou. (...) a multiplicidade de tudo, dos caminhos que se bifurcam. da distância entre as pessoas, dos universos que se afastam, do crónico cansaço, da mania em sonhar, (...) um deus da doença, um deus do sofrimento e da desagregação, os tubos coronários, a espetarem-se corpo fora, a derramarem o sangue, bacias hemográficas, com barragens osteoformes, e o deus da doença. (...) estradas mais profundas, sulcadas por vagabundos errantes e aleatórios, que se locomovem até cairem na estrada. estenuados de cansaço e sem interesse pela vida, expressionistas, absurdos no seu sentir e viver. deitados de costas, a olharem para cima, a pupila paralisda, hipnotizados pelo cadáver do céu, à espera que o deus da doença os leve.

25.8.03

citoplasma

um lago com uma mulher triste. os pensamentos como uma máquina de lavar. quando te encontrei talvez fosses uma estátua. ou uma ideia abandonada sob escombros. (...) no chão jazia o esqueleto de uma catedral. com aquela brancura do osso característica, com a porosidade da morte. um pântano como uma mulher sem filhos. os pensamentos arrancados do chão com uma retro-escavadora. o martelo pneumático. a dinamitação dos teus olhos. uma ideia abandonada sob os escombros, sob o entulho. (...) o coração prematuro. crucificado no próprio esterno. um bosque gregoriano, com restos de civilizações perdidas. um altar carbonizado, uma tumba com as tripas de fora. marte aproxima-se, a decadência do ocidente (...) quando te encontrei pensei que eras um bocado de pedra sagrada. fui-me apercebendo lentamente do teu rosto através dos séculos e dos espelhos, através de um nevoeiro de cimento. o teu rosto era um espiritismo nocturno. um espiritismo nocturno e através da pedra vê-seum lago, onde uma mulher se despe em arcanos. e no chão jaziam despojos humanos e os restos de uma catedral. (...) quando te encontrei pensei que eras um organismo num mecanismo. estava á procura de te encontrar. memso não sabendo que eras. à procura de conquistar algo inexpugnável, tão belo como uma arma, (...) um bosque onde se perde a esponja dos pensamentos. o encéfalo em estrutura de bolor, o vento e os esporos. um espelho de cartilagens onde escavas galerias à procura do marco geodésico da alma, à procura do coração do coração.

24.8.03

a questão judaica

todos os dias cristo é entregue pelos judeus aos romanos.

23.8.03

antropofobia

a cabeça em cacho de flores. pendurada pelo pescoço, suspensa no ar. do tecto do céu até quase ao chão como um candelabro fantasma. os seus movimentos regulares, sinusoidais, sobre si própria. como quem diz que sim e que não ao mesmo tempo. (...) uma inquietação de insecto, os gânglios do mar, um cancro linfático (...) e a cabeça era uma alucinação de pétalas. e eu estava a vê-la como se fosse uma floresta em armas. com o espanto de cervicais lesionadas. susupenso no ar, e eu a falar com ele, com um arbusto. um frio de paralisia, um frio de espiritismo. um arbusto cujo comportamento parecia uma pessoa. (...) esfregar os olhos de cansaço e encontrar a própria caveira (...) para tar a perceber que tava a falar com uma cabeça de clorofila. e movia-se sobre o seu próprio eixo. foi quando percebi que há objectos que têm pessoas lá dentro.

18.8.03

aurea mediocritas

a paisagem podia ser assim como um estuário. como quem vê isso de um ponto mais alto. dentro da terra havia segredos. como se fossem mortos que tivessem levado mapas do tesouro com a sua morte. havia o remorso por cima do húmus. havia o remorso como se tivessemos crimes escondidos dentro das nossas moléculas. (...) eu esforcei-me, dentro do ar, quando há os segredos da matéria. em melodias mórbidas. procurando ressuscitar a energia. eu esforcei-me dentro das sete paredes do sonho. e depois a paisagem não é o paraíso.é apenas uma gaivota doente que voa eco por entre as nossas membranas. e eu juro pelo fogo e pelo espaço. (tava ali no banho de imersão, com uma pedrada gloriosa, e a questionar-me. se as pernas que se moviam debaixo de água eram minhas. tinham que ser minhas, porque não estava mais ninguém em casa, e como não podiam ser de mais ninguém tinham, por exclusão de partes, de ser minhas.... mas fiquei que tempos a puxar pela cabeça e a estranhar aqueles pés de batráquio)..................................(estar vivo é positivo. nem que seja para assistirmos do camarote às desgraças e absurdos que nos servem de entretém)...

17.8.03

eros

todas as coisas que fizemos juntos e foram inúteis.

16.8.03

o centro do sangue

(aconteceu tudo exactamente como se acreditasse no que escrevo): há uma galáxia que é o centro do sangue. e estava na praia quando uma estrela cadente que até pensei que alguém atirasse um projéctil. as estrelas eram uma marcha triunfal, para a doença e para a morte. (...) um sonho, forrado a aço, como uma angústia militarista ou uma camisa castanha. uma mesa niilista onde se apoiam os cotovelos esfolados. e eu estava deitado no chão, na praia, de noite, quando o quadro negro se riscou giz com um sinal do céu. e há uma galáxia que é o centro do sangue. um sonho sepultado sob uma laje de betão. o céu mostrou-me que dentro do sangue há um sangue ainda mais profundo.

14.8.03

ofídeo

enrola-se no ar, a carne dos sentimentos pardoxais. os tam-tam prosseguem num ritmo forte e estupefaciente. a melopeia é sinistra, autista e encantadora. com um fogo geológico a sair das pedras. o êstase na modorra, no inconsciente. o esgotamento nervoso, o fumo xamânico, os gestos repetidos até à exaustão. o grande sonho de embriaguez que se sobrepõe à vida dita real. (...) seria bela essa embriaguez agora, para poder voar.

gnose

as coisas que são feitas e que nunca serão ditas. as coisas que foram pensadas e que nunca foram feitas. a caixa secreta, mantida em subterrâneo como tantos outros milhares de anos. milhares de anos em caves aproveitando o húmus da superfície que irrigava abóbodas de cálcareo. (...) a disciplina era a do silêncio e do remorso. os ossos eram enfiados na terra, espetados como uma pessoa a passar na rua. os altares inconscientes onde depositamos oferendas, libações e ex-votos (...) accionar um mundo. a vegetação rasteira, rosnando ctónicas ameaças. o princípio da vida e do nada. estátuas sado-masoquistas, anunciando a salvação. e o enorme poder de um deus desconhecido e sanguinário .

12.8.03

gólgota

olha-se lá para fora. era suposto tar aqui uma marquise envidraçada para se poder olhar lá para fora. uma paisagem ampla, grandiosa e esfarrapada. és a lua, a bater-me na janela?, com pequenas pedrinhas nos estores?, (...) não se consegue olhar de outra maneira hoje. as coisas não são assim, naufrágios domésticos, no entanto não se consegue pensar de outra maneira hoje. há maldições que parece que foram postos os seus ovos antes de nos deslocarmos no espaço. (...) enrolo-me no próprio miocárdio, como se tivesse a enrolar um cigarro. num gesto de quem se absorve a si mesmo. como o ralo da banheira a chupar a água, as vísceras e os pulmões a descerem centrípetos cano abaixo. era suposto ser verão, eu sei, mas hoje fez uma grande trovoada alcóolica dentro do crânio, (do gólgota em aramaico, mas eu preferia usar a expressão "dentro das quatro paredes da minha cabeça").
é a lua a bater-me no estore da janela, a chamar-me...

10.8.03

atmosfera

um entardecer bonito, um crepúsculo de antidepressivos. paliçadas de lapiz gigantes. os sonhos aquartelados. a esplanada, o vale logo ali a praia. caranguejos gigantes a sair da água, com velas às costas, windsurfistas crustáceos. o mar parado a olhar, com uns olhos profundos como a morte. um fenómeno atmosférico, teatral, cinéfilo, por cima.
é tão distante o país da purificação...

7.8.03

o valor da raça

como vivo junto ao chão tenho por hábito ser surprendido por bichos esquisitos que deambulam. tenho que os matar. não é que os queira ou sequer possa exterminar aqueles insectos todos. mas não posso permitir que um bicho faça de mim a sua encruzilhada.
junto ao chão também se locomove uma senhora com esclerose que conheço. na praia, se não tem ninguém que a ampare para ir à água, vai de gatas. viver assim, com as limitações de uma doença degenerativa, e mesmo assim continuar a lutar. continuar nestas condições, que coragem...
perante um exemplo destes só posso sentir vergonha. eu, que sou saudável mas que desisto de tudo com tanta facilidade. uma pessoa que encara a decrepitude assim só pode ser de uma raça superior...

6.8.03

morte em pleno verão

no entanto a praia, essa generosa molécula onde nos encontramos com o nosso oceano.
as pessoas morrem mesmo. metidas nas suas crisálidas de madeira. evaporando as suas presenças aos altíssimos céus de agosto.
no entanto a praia, essa grande molécula tão viva.
(...)
o funeral realizou-se ao fim da tarde. o corpo teve na igreja do cartaxo, depois foi para a igreja de vale paraíso e foi a enterrar no cemitério da mesma aldeia. era irmã do meu avô. mal a conhecia. o que é indiferente.

5.8.03

fluxo

o fluxo contínuo dos mortos. de regresso à terra. a matéria transitoriamente viva.os mortos absorvidos por buracos no chão. como água a desaparecer por fendas na argila ressequida.

3.8.03

recordação do incêndio

o jardim do fogo, onde as borboletas batem asas até queimar, colunas de fumo sustêm o céu,
um desenlace teatral, com a noite carbonizada, os ossos de fora, a carne incandescente das montanhas, em brasa, a palpitar beleza,
a grandiosidade do terrível descontrolo.
as chamas a subirem, a subirem, chupando o oxigénio todo.
o deus dragão, os espíritos dentro das labaredas,
o obsoluto fascínio por todas as coisas que ardem, essa combustão bela da natureza.

quando há um incêndio pelo menos acontece alguma coisa que se veja.

2.8.03

o sorriso acrí­lico

uma nave fabril de costelas arruinadas, há um duende morto que se deitou hoje na minha cama. a inconsciência, o calor demais, o céu vai-se rachar de alto a baixo,
o céu vai-se rachar como garrafas misantrópicas
a cabeça como uma península.
e o sorriso acrílico nela.

31.7.03

a matéria transitoriamente viva

um palhaço a quem partiram as pernas, atirado para dentro de um contentor do lixo.
bacias hidrográficas, com rios de linfa e geologia de plástico.
cadáveres célebres murmuram por entre folhagens simbolistas.
dizes que gostas de me ver dormir. que pareço um bebé de grandes pestanas. agradeço sinceramente o teu amor por mim. não sei se é repugnante a palavra agradeço, neste contexto. espero que não, não era essa a ideia.
de qualquer das ideias espero que nunca descubras o quão doentio e perverso eu posso ser.
amo-te.

30.7.03

depois do parêntesis

(uma cabeça de triciclos, um profeta moribundo, uma ilha com magnésio, a barriga de um veleiro, esta esterilidade formalista, a fala congela em cubos, como um desarranjo na tiróide, as palmeiras vazias, a desistência a dar à praia como náufragos, os olhos inexpressivos dos peixes, regatos em escarpas, com árvores espetadas em falésias):
eu tinha uma namorada, estava com outros adolescentes no café. estava a sentir-me socialmente inquieto, uma negra disposição por dentro da alegria esforçada. fui à casa de banho. fechei os olhos, e a ponta da faca entrou na carne nas costas da mão esquerda. quando rompe a resistência da pele, e desliza nos flocos de carne. apesar da pouca profundidade.
senti-me aliviado. voltei à mesa. e escondi a mão esquerda. um fiozinho de sangue pingava através dos dedos. tudo corria pelo melhor. e a minha namorada estava feliz comigo e com os seus amigos no café.

sismo

fechei a luz eram sete da manhã. a porcaria dos passarinhos já andavam a cantarolar por cima das árvores, o sol levantava-se gigante entre as casas, anunciando um dia debaixo do seu enorme poder radioactivo. às seis e meia houve um sismo. eu não sei se o senti ou não. tenho a impressão que sim mas só depois de saber que houve um sismo é que achei que tinha sentido um sismo. efeito placebo?, de qualquer das maneiras tava cheio de sono, como sempre e como agora,
e a cabeça pendia pelo pescoço, quase a decapitar-se sozinha nos ombros.

29.7.03

meia noite e meia

meia noite e meia, um frio estepe desce verticalmente por sobre a espiral dos pensamentos, uma escada em espiral, uma torre de menagem, subir como se fossemos a um sótão, a um sítio mágico, a infância dentro de um báu,
atrás dos olhos, uma cortina de sensações falsas, uma película entre o fim do globo ocular e os pensamentos, uma cefaleia, uma perda de altitude, uma apenas saturação de imagens, entre a ficha do nervo óptico e o cansaço epssoal. cabeça pesada. bebi um café porque queria vir para o pé de ti. tou demasiado cheio. até de esperanças. tenho vomitado de vez em quando. demasiado cheio. até demasiado cheio de esperanças.
quero falar contigo, mas como?
a noite da estação de serviço, o vento fresco no tórax, um quarto escuro por trás dos olhos, a poesia toda ali na estante, um ritual indígena, algures no espaço do ar e todo o resto do mundo. um diagrama de insectos. uma cozinha multifuncional, moderna. um capacete nazi a enferrujar. com plantas dentro, fazendo um vaso. as minhas plantas olham pelas janelas lá para fora. ao mesmo tempo o ecossistema, protozoários atrás das orelhas, uma comichão,
a inquietação bebendo o aço é atroz, disseram-me sobre uim verso meu, como é que as pessoas se podem lembrar. seja do que for. quando olhei para cima, ao sair de casa, fiquei encadeado com um holofote solar, branco e cálido, e depois, com dificuldade, comecei a ver os traços das linhas telefónicas, e comecei a pensar que estavamos debaixo de uma rede de pesca, uma membrana de vozes, um ninho onde debaixo da terra as pessoas se criam embriões, três morcegos em forma de pêra, o cosmodromium, o jardim dos arcanos maiores, a previsão do futuro, talvez fosse altura de começar a aprender a lutar, talvezaindanão seja totalmente tarde, talvez ainda se possa,
um círculo na parede, anotações várias, instrumentos musicais espalhados entre as transformações das ideias e o sono, o cansaço vário, multicolor,

28.7.03

segunda cozinhando o cérebro

segunda cozinhando o cérebro dentro da cabeça, a música tá muito alta
- porque não baixá-la
e será possível? e será possível baixá-la.
as ideias fervem dentro da cabeça. eu vivo mais de noite do que de dia. tenho uma osga de estimação. não está num terráreo, está no quarto ao lado, tem um quarto só para ela. uma osga afinal é um lagarto lindo, as pessoas têm medo JA SE VIU QUE OS DINAUSSAURIUS, as pessoas têm medo, mas por vezes não há que ter medo,
ontem tive uma experiência de abducção. abduzi uma rapariga pequenina, relativamente estrábica, que estava num sofá grande sem costas, no meio de alguém que estava no sonho,
tratava-se de um romance, de um grande romanca, um romance já imaginado através da rede, mas não pensava que ela fosse assim, tão pequenina, tão frágil, e isso deu-me uma ternura muito grande, aquela posição clássica que enternece os homens: A PROTECÇÃO, quando a conheci, havia mais gente, como se ela tivesse chegado com uma turma. eram irritantes. doia-me a cabeça. estava a trabalhar num livro, espantado em frente ao computador. teve que haver violência. quando sonho com o cérebro empapado em alcóol há sempre violência.
e depois
a osga movimenta-se numa grande economia de esforço, rodando todo o seu corpo enquanto puxa a pata para a frente, e ao puxar a pata para a frente é a VELOCIDADE
e depois foi a ternura, tudo o que um porco pode querer e nunca disse, apenas a ternura de namorar, e já nem digo sexo, apenas aquela abducção extraterrestre de lhe pegar por debaixo dos braços e sentir uma grnade segurança, porque ela vai dizer sim
mas antes foi preciso alguma violência, eram plataformas de escolhos, caras queimadas em quadros, pessoas conhecidas sentadas dentro do seu vértice ou precipício, alguma massa humana, alguma massa humana sem dúvida, saracoteava-se por grandes compartimentos quadrangulares e de metal, mas isso era quando ela não estava lá
era uma casa infinita
segunda cozinhando o cérebro, espremendo-o para tentar exaurir, EXAURIR OUVIRAM?!, tudo o que aconteceu ontem
eu prefiro estar a domir do que acordado. não acredito nada na vida real. e prefiro sonhar. mesmo quando sou apunhalado também posso voar, mesmo quando não encontro os sapatos também posso ser transparente.
e ela era linda, pequenina, com os olhos tortos que lhe dava um ar por de quem eu poderia morrer. e não estava à espera ao princípio, porque sim, já tínhamos trocado correspondência, mas depois de a encontrar creio que tive algum retraimento, mas quando a puxei do sofá, quando a abduzi, senti que ela tava tão feliz, com a sua ternura concentrada, como um buraco negro, com uma densidade de amor demasiado cósmica para eu não sorris cintilando estrelas nos dentes
a única coisa que interessa é o enamoramento e namorar, e o resto, traições, amputações, pátrias, caminhos ritzomáticos, é tudo um pano de fundo para disfarçar
que belo namoro que comecei ontem, tou tão feliz...